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Friday, March 21, 2008

Tema : Livre

Espero que todos se tenham sentido livres para participar, que todos apreciem os trabalhos aqui publicados. O conceito é sem dúvida fascinante e este projecto não pode morrer. Vamos todos lutar por ele! Numa sociedade onde os valores estão cada vez mais subvalorizados, vamos criar! Criar é mágico. Este é o lugar para todos darmos asas à nossa imaginação, para todos deixarmos a nossa criatividade falar! Arcádia XXI é um projecto arrojado, sem dúvida, mas vale a pena! Oh, se vale!
Por aqui me despeço como editora, e passo a divulgar que o editor para o mês de Abril é a Styska e o tema desse mês será:


Viagem


Saudações Arcadianas!

Versão PDF

Animals were gone por Celi M.



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Holofotes por Styska

Sábado, sete e meia da manhã. Acordas com a luz que entra pela janela e inunda o quarto. Nada te sabe melhor que acordar com sol e desfrutar de uns minutos de preguiça na cama – esse luxo não te é permitido durante a semana. Atiras com os lençóis para trás e levantas-te com um sorriso nos lábios. Ligas o rádio e deixas que a música exerça o efeito conciliador que sempre teve em ti. Entras na casa de banho e olhas-te ao espelho. Toda a gente evita olhar-se ao espelho pela manhã mas tu sempre achaste piada ao reflexo matutino e abanas a cabeça como um leão sacode a sua juba! Sorris. Abres a água quente e despes o pijama ao som da música como se fizesses um striptease para alguém imaginário – a ideia agrada-te. Páras por um segundo para te olhares no espelho. Nunca foste um ícone de beleza mas o tempo tem-te tratado bem, passas a mão pelo ventre e pelos seios – uma mulher não deve ter um ar estéril. Entras na banheira e assim que corres a cortina atrás de ti tudo se transforma. As luzes baixam-se e focos vermelhos surgem no tecto iluminando todo o teu corpo. Acompanhas a música com movimentos ritmados e cantas livremente. O chuveiro na tua mão é, na verdade, um microfone, o som da água é o público que te aplaude. E a água quente escorre pelo teu corpo incendiando os teus sentidos, misturando-se com o sabão, o champô, e tu cantas a plenos pulmões como se não houvesse mais nada neste mundo. Desligas a água, corres a cortina e tudo volta ao normal. O sol brilha radiante lá fora. São sete e quarenta e cinco.


Sábado, oito e trinta e sete da noite. Mais um jantar. Sempre as mesmas pessoas, sempre as mesmas conversas. Todos os teus movimentos são observados, vigiados, julgados. Mesmo os que te são mais próximos não conseguem evitar fazê-lo! Está na hora. Levantas-te da mesa com um “Até já!” e sais do restaurante em direcção ao teatro. És sempre a primeira a sair e o curto caminho que separa o restaurante do teatro é a única altura do dia em que te é permitido um vago sentimento de anonimato. Chegada ao teatro vês que a fila já vai longa, bilhetes esgotados há meses, a maior sala de espectáculos do país. Sempre os mesmos palcos, sempre o mesmo público. Trocavas tudo sem pensar duas vezes! Entras pela porta de artistas e és imediatamente inundada com perguntas, pedidos, opiniões. Roupa, maquilhagem, cabelo, alinhamento, entrevistas rápidas, autógrafos para os amigos e as famílias… Respondes a tudo rápida e educadamente e entras o mais depressa que consegues no camarim. São assim todos os teus dias – não há tempo sequer para respirar. Afundas-te na cadeira e olhas-te ao espelho. É-te tudo tão pesado. Escondes as rugas e os olhos encovados atrás da maquilhagem. Despes a roupa. Observas-te longamente enquanto passas as mãos pelo ventre e pelos seios. Beleza infecunda – o tempo da felicidade já passou há muito. Escondes-te atrás de vestidos deslumbrantes. Soltas o cabelo e passas os dedos por algumas madeixas. Está na hora. Sais do camarim e, mais uma vez, chovem perguntas, informações, tudo… Apagam-se as luzes na sala. Sobes ao palco sem ninguém te ver, páras a meio. Um foco alaranjado acende-se sobre ti. Aplausos ensurdecedores. O contrabaixo dá o tom. Respiras – é aqui que a vida começa. São dez horas.

Styska
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Turtles can fly por João Ramalho

Subi, até ao cimo da montanha mais alta,
acima das nuvens e dos pensamentos.
Senti, o ar frio onde a vida é escassa.

Percorri campos de milho dourado pelo sol,
salpiquei os pés descalços com a água limpa de um riacho,
perdi-me em bosques impenetráveis de sombras e medos
e atravessei fronteiras imaginárias.

Naveguei oceanos, sobrevoei civilizações.
Conheci pessoas fantásticas, diferentes.
Partilhei, sensações e emoções.

Contemplei um último pôr-do-sol numa praia deserta.
Deixei que a lua me fizesse companhia durante a noite.
Deixei que a chuva escondesse as minhas lágrimas.
Deixei que o vento me levasse e mostrasse o caminho.

E só então soube o que é ser livre.
Só então aprendi a ser feliz.

"I'm just a small turtle, but I can fly...
...and in my thoughts, I'm free."

João Ramalho
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Pensei, disse e... só! por Diana Martins

"Um dia pensei que queria ser livre. Depois de pensar, depois de pensar muito, durante muitos dias que queria ser livre, disse que queria ser livre. Disse que queria ser livre. Depois perguntei-me, qual seria o próximo passo. E respondi-me: “É ser livre, o próximo passo é ser livre. “ Para isso basta ser livre. Basta pensar que se quer ser livre, dizer-se que se quer ser livre, e ser-se livre. E então percebi. Estava preso à ideia de que queria ser livre. Estado preso na própria tentativa da liberdade. E então pensei, vou libertar-me da tentativa de ser livre. Depois de ter pensado nisso muito tempo, disse-o. Verbalizei-o. Ia libertar-me da tentativa de ser livre. E então percebi, estava preso à tentativa de me libertar de ser livre. E assim me vi engolido num ciclo infinito. Uma bola de neve que ia crescendo, à medida que as minhas ideias se iam transformando em palavras e de seguida em tentativas. Então, parei. Parei e deitei-me na relva verde, muito verde, do jardim. Fumei um cigarro. Via o fumo libertar-se de dentro de mim e formar desenhos no ar. Dispersar-se até ser nada. Fiquei ali até que o dia se pôs. E com o passar das horas fui desconstruindo a minha vida. Fazendo-a em pequenos fragmentos de história. O momento em que aquele rapaz ruivo, me empurrou no recreio da escola primária, e eu caí no chão. O meu joelho deitou tanto sangue que julguei que ia morrer. Depois veio a empregada da escola de quem já só lembro o bigode muito preto, pôs-me um penso sobre o corte que eu tinha imaginado fatal e salvou-me a vida. Pelo menos foi o que acreditei naquela manha de sol em que o arranhão do joelho me fez temer pela vida. Depois houve o dia em que a Manuela quis ser minha namorada e me mandou um bilhetinho de amor com uns quadradinhos para usar na resposta de sim ou não. A vida era simples. Eu disse que não e ela não chorou, nem me deu um estalo, nem quis vingança. No dia seguinte namorava com o ruivo que me empurrou no recreio e me fez temer pela vida e pelo arranhão no meu joelho. Mas não foi por vingança, foi por ser criança. A vida era simples. E depois o dia em que o avô me pôs aos ombros durante a vindima para eu ir comendo as uvas ainda na videira. Ainda sinto o sabor doce das uvas. E o cheiro a vindimas, e dos caixotes cheios de uvas. E a primeira namorada. A primeira desilusão. O primeiro emprego. A mulher. Os filhos. E é aqui que paro e penso: quero ser livre. Ouvi alguém dizer um dia que tudo tem solução. Mas quem o disse, não sabia possível que um homem de meia-idade, um homem responsável de meia-idade, parasse, pensasse, e dissesse que quer ser livre. No momento de ser livre hesita. Não sabe sê-lo. Hesito. Vejo o tempo passar. A amargura chegar. Abdiquei de muito. Hesito. Vejo o tempo passar. Duvido: Terá valido a pena? Quero ser livre. A mulher que grita o meu nome para o jantar e que me questiona a lucidez: “- Deitado na relva a fumar até ao cair da noite na tua idade? Já tinhas idade para ter juízo.” Mal sabe ela, que estou no limite. Os miúdos discutem. Três crianças, com vozinhas estridentes, irritantes, discutem. Já não se pode ouvi-las. Grito-lhes que se calem. As lágrimas, as birras. Não aguento mais. Hesito. Hesito. Duvido. “: - Terá valido a pena?.

Saio da mesa sem jantar, a mulher corre atrás, com voz de discussão. Voz que pede gritaria. Não lhe respondo. Ela segue-me, aumenta o tom de voz, não desiste. Ignoro-a. Não posso discutir agora, tenho medo de me descontrolar e ser o fim. Ela enfurece-se. Grita. As crianças assustam-se. Têm medo. Choram alto, gritam. A mulher grita. Dou voltas à casa, perdido. Sussurro entre dentes: “Pára!” e “Agora não…” e “Não aguento…”. Ela continua, cada vez mais fora de si. As crianças, a mulher…. Batem à porta. São os sogros, que além de sogros são vizinhos. Ouviram a gritaria, vêm em defesa da filha. Gritam. O Sogro quer confusão. A sogra grita mais alto do que a filha. Deve vir com a idade. Quando se casaram a mulher sussurrava e eu falava em tom seguro, alto e forte. Agora ela grita, eu sussurro. Hesito. Duvido. Quero ser livre. Dói-me a cabeça. Amanha o dia será melhor. Ponho os sogros na rua. “- Mal-educado!”; “- Insensível, os papás só querem o meu bem”. As crianças histéricas choram, gritam, saltam pela casa. Deito as crianças a custo. A uma delas tenho que recorrer à merecida mas difícil estalada. Dói-me mais a mim que a ela. A mulher murmura. Vai moendo baixinho. Vai alimentando aquele bicho que vai comendo tudo de bom que ainda existe. A mulher continua o murmúrio, o lamento pela noite fora. Hesito. Duvido. Quero ser livre. Hesito. Duvido. Quero ser livre. Hesito. Duvido. Quero ser livre. Escolhi assim. Quis casar, casei. Quis um filho, vieram três, paciência. Fui feliz. Valeram a pena. Mas quero ser livre. Não aguento mais. Na minha cabeça, o murmúrio, os gritinhos, os choramingais, os sogros, o patrão que é um abutre. Hesito. Duvido. Quero ser livre. Desço as escadas até à garagem. Pego na pistola escondida debaixo de um armário velho, por causa dos miúdos. Procuro as balas, escondidas noutro armário. Saio para o jardim. Deito-me na relva, vejo as estrelas. A lua cheia que enche a noite de luz. Preparo a arma lentamente. Acendo um cigarro. Fumo-o até ao fim. Acendo outro cigarro. Fuma-o até ao fim. Fumo cigarros atrás de cigarros. O maço inteiro. O dia começa a nascer. Levanta-se uma pomba solitária no alto. Pego na arma. O tiro é certeiro. A pomba fica esborrachada e cai no chão desfeita. Nunca gostei de pombas. Fumo um último cigarro, lento. Levanto-me e saio de casa para o mundo, com a roupa que tenho no corpo. Tomo café e compro jornal no café da esquina. Volto a casa e trago pão quente e croissants para o pequeno-almoço dos meninos. Hesito. Acedo. Submeto-me. Talvez um dia…"

Diana Martins
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Asas(inhas) por Luisa Oliveira

Lá ao fundo, bem lá ao fundo. Uma pintinha próxima da linha do horizonte que os seus pequenos olhos alcançavam.
“- Achas que é muito longe?”
“- Tens pressa?”
Caminharam. Lado a lado, mão com mão. O fio que existia entre os seus olhos só se quebrava, de tempos a tempos, para vislumbrarem o pequeno ponto e perceberem se iam na direcção certa. E daí, talvez nem se quebrasse. Talvez esse fio invisível estivesse sempre presente, unindo muito mais do que o olhar. Com a respiração sincronizada, o resto do Mundo ficava muito longe e o paraíso dos sonhos abraçava-os e enlaçava-os e entrelaçava-os. Eles eram esse lugar encantado. Passo a passo, a pintinha lá ao fundo ganhou forma.
“- Uma placa?”
Sim, uma placa. Uma placa daquelas que indicam o início ou o fim de uma localidade. Uma simples placa de beira de estrada, com a única particularidade de não ter nada escrito.
“- E agora, como sabemos que sítio é este?”
Ele agarrou na caneta preta e escreveu. Ela sorriu.

Luisa Oliveira

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O destruidor de rebanhos por Fernando Miguel Santos

Um dia acordamos e sentimos um impulso terrível. Uma sensação de dever incumprido, um aperto, uma força interior. Se não a seguirmos consome-nos. Se formos atrás dela corremos riscos enormes. Sim, é este o problema. O risco. Não há quem lide bem com ele e apenas só uma vez por outra se encontra alguém que saiba como contornar esse medo.

Se o risco não existisse não haveria heróis, os valentes seriam como qualquer outro; não existiria fantasia e os sonhos seriam fuligem pousada em mobiliário antigo.

Tenho uma amiga que deixou de falar comigo durante um certo tempo. Pensei que a memória dela não fosse perfeita, como nenhuma é, e acabei por aceitar que era ocupada de mais para me falar. Certo dia, confessou porquê. Por entre problemas, tinha conhecido o homem da sua vida e vai casar e viver com ele fora do país. Desde o final do ano passado até agora, o seu sonho tornou-se o seu farol e, numa atitude que muitos tomariam como inconsciente, aceitou mudar a sua vida.

Embora esta história tenha um tom um tanto ou quanto semelhante aos livros de auto-ajuda tem uma diferença: é verdade. E é assim que todos devíamos ser. Implacáveis quanto àquilo que amamos. Recusarmo-nos a entrar na fila indiana, no rebanho, preferir o carrossel alucinante de uma escolha desmesuradamente recheada de novidade e risco. Abater o medo com uma espingarda de sorte e jogar connosco, confiando-nos a nós próprios.

Abrirmos as asas não é difícil. Difícil é deixá-las bater por si só, como fazem os pássaros, desviando-nos de correntes adversas quase instintivamente e apoiando-nos em poços de ar quente para subir, poupando energia para as lufadas contrárias ou as tempestades de chuva.

É tão-somente ouvir o que vai dentro de nós. Quem nunca pôs um búzio na orelha? Hoje, o búzio somos nós. Ouvimos hoje o que o nosso búzio diz. Amanhã partimos.


Fernando Miguel Santos (Autor de Aldeia de Luz)
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Sleepers por João Meirinhos

Fomos dirigidos com algemas ao longo

dum soturno e invernal corredor na cave.

Disseram-nos em silêncio que iriam

ensinar-nos a ser homens duros, adultos.

As paredes pareciam que nos avisavam

do que se avizinhava –não se deixem

arrastar até lá ou nunca mais voltarão –

ciciavam as cobras e baratas que

reluziam entre a pluviosidade dum

prólogo que isolaria o girassol dos

espinheiros em flôr pela animosidade.

Tínhamos 14 anos e acreditávamos

que juntos aguentaríamos outra sova.

Mas não era disso que se tratava –

era cobardia entesada de bebâdos

guardas sádicos no refeitório do

reformatório – a seguir a essa digestão

fomos violados sempre com cassetetes

pela epidural afundo, enquanto íamos

repetindo o Pai-D’alguém, com as mãos

sobre chicórias escabiosas falavam-nos

da nossa mãe – imagina se Ela te visse

agora com a boca cheia de esperma –

mas já só vingança seria sinónimo de

sorriso para os Condes de Monte Cristo.

João Meirinhos
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Liberdade por Ana Margarida Ferreira

Sofia não gostava de crianças. Era uma pessoa egoista, fria e feliz. Sofia morava sozinha num apartamento de luxo na Costa. Tinha um trabalho interessante como designer de interiores. Sofia não tentava parecer feliz numa vida sem sentido. Era-o mesmo. Volta e meia levava um homem lá a casa, passavam a noite juntos. Nunca mais de três vezes com o mesmo homem. Sofia não gostava que se apegassem a ela. No verão ia um mês para as caraíbas, grécia, méxico, nova iorque. No inverno ia passar o natal sempre a um sítio diferente. Sempre sozinha. Sofia não criava laços. Gostava de ser livre, dizia.

Não suporto estar aqui dentro. Morro se aqui fico mais um dia qual pássaro enjaulado. A vida não é isto, não pode ser só isto. Sonho com o mar e com as montanhas verdes caiadas de branco no inverno, com as andorinhas a chegar na primavera depois de uma longa viagem. Com o calor do sol no peito e os grãos de areia a escorrer por entre os dedos. Anseio pela primeira trinca numa maçã suculenta e ácida e por uma descida acentuada de bicicleta com as mãos no ar. Louco. Insane. Demente. Senil. Assim me internaram neste asilo de gente perdida livremente por entre os mundos criados na sua cabeça. Assim me enfiaram aqui quando comecei a pensar de maneira diferente. Senil. Demente. Insane. Louco.

Eu sou a personagem de um livro. O meu nome é Penélope. Estou aqui presa e gostava tanto de ser real. Vivo através de vós, leitores. Vivo a minha vida do início ao fim de cada vez que cada um de vós abre este livro. Eu gostava tanto de viver aí convosco. A minha vida foi ditada pelas mãos de um homem que com uma caneta vermelha com letras douradas me inscreveu no papel. Primeiro um nome. Penélope. Depois uma história. Curta e trágica a minha. E assim estou aqui, presa, nesta existência que vos faz rir e chorar a vós. Marioneta. Há alguns de vós que gostam de mim, outros comovem-se e choram. Ainda os há, aqueles que me odeiam. E eu assim fico, eternamente presa e marioneta na minha vida que não é minha. Não quererá algum de vós leitores, libertar-me desta minha existência?

Ela chama-se G. e preza acima de tudo a sua liberdade. Ela não considera que ser livre é ser só e fazer tudo o que quiser. Para ela isso é ser solitário. Ela adora ler e adorava um dia poder libertar a personagem de um livro e trazê-la para a vida real. Ela gosta de voar. Voar mesmo. Não num avião. O quê? Não sabiam? Podem voar sempre que quiserem, não precisam do avião para nada. Ela não vive só, está rodeada de gente que quer saber o que ela faz e o que não faz e para onde vai. Ela está rodeada de gente que a adora. Ela acha que ser livre é correr de braços abertos pela praia com os pés na espuma das ondas, é andar na mais alta montanha russa e berrar muito na descida, é pegar um bebé recém-nascido nos braços e vê-lo sorrir pela primeira vez, é ler um livro e imaginar o seu próprio final como ela mais gosta. Livre. Para ela, se alguma imagem houvesse de liberdade, era um enorme sorriso e os braços bem abertos, no topo de uma colina, preparando-se para voar.

Ana Margarida Ferreira
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