Showing posts with label Fevereiro. Show all posts
Showing posts with label Fevereiro. Show all posts

Thursday, February 21, 2008

O não Amor

O primeiro. Um passo difícil, um tema arriscado. O que custou mais foi sair da inércia, partir de um conceito para uma ideia de uma ideia para um projecto. Ainda está tudo muito experimental, ainda está tudo muito verde mas o caminho é longo e aprendizagem foi uma das premissas que nos fez avançar. Esperamos evoluir e melhorar.
Nós próprios nos assustámos com a diferença óbvia do primeiro tema mas o Arcádia XXI pretende ser isso mesmo, um risco, uma aventura, uma diferença. Talvez tenhamos afugentado potenciais participantes com algo tão complexo como o não-amor, mas a consolação final é que, aquilo que vos apresentamos hoje, prima pela qualidade.
Esperamos evoluir e que evoluam connosco, porque este espaço não pode ser feito por um.
O editor para o mês de Março será a Margarida e o tema já está escolhido. Por isso, podem começar a criar.

Tema: Livre


Saudações Arcadianas!

Para quem quiser fica a Versão PDF. Com um extra e tudo!
Versão PDF

Estamos cá para isso por SA.

Outra vez não. Não me digas outra vez que precisamos de falar, já sei o que vais dizer, já o disseste antes e, se o disseres agora vais acabar por sair disparado pela porta, lágrimas nos olhos e mãoes trémulas, outra vez.
Vá lá, poupa-te a isso, sabes bem que é inútil, que não estamos cá para isso. Não, não estamos cá para isso e tu sabe-lo bem, ficou bem claro desde o início- não estamos aqui para que afundes os teus dedos no meu cabelo, para que me afagues o rosto, docemente, com o teu queixo, para que me cuides do corpo devagar enquanto me olhas nos olhos e reparas na expressãoextasiada da minha respiração, e não, não estamos aqui porque "precisamos de falar".
Podemos falar, sabes que sim, falamos sempre enquanto deitados nos lençóis suados, enquanto fumamos cigarros depois daquilo porque realmente estamos aqui.
Não é suposto ser carinhoso e muito menos amoroso, é suposto ser aquilo que é- simples, brutal, caótico, libertador. Mas tu voltas sempre ao mesmo, a um nós que só existe quando estás dentro de mim, quando me encostas à parede e me arrancas o ar de executiva ao erguer-me a saia e expores-me os seios à tua boca, sem obstáculos a isso- afinal, obstáculos são brincadeiras remanceadas, e nós não estamos cá para isso.
Podemos ter brincadeiras, claro que podemos, afinal, o sexo é um jogo, e é para isso mesmo que aqui estamos, para que eu me ria e me perca num sorrisoquando me dizes, ao mergulhares-me entre as pernas, que vais à procura da minha alma. Tudo o resto é caos, corpos, prazer e suor, nada mais, o amor não entra aqui, nunca entrou.
Por isso não me digas que "precisamos de falar", é uma expressão que pertence aos enamorados e, tu sabes, nós não estamos apaixonados- as minhas unhas cravadas nas tuas costas não são o medo de te largar e a marca que tenho na coxa direita não é da saída de energia que o amor nos suga. Ainda que penses, que estupidez!, que possas estar apaixonado, tu sabes que não podes estar, porque o que está aqui, mesmo à tua frente, é só um corpo, e é um corpo que está aqui para isto, porque nenhum de nós tem tempo para conhecer, para gostar, meu deus!, para amar.
Não estamos aqui para que te declares nem para assumir o que não somos, como te preparavas para fazer. Estamos aqui porque, já se sabe, apesar de termos relógios que nos marcam o tempo que não temos, sabemos bem que o corpo tem um prazo, e a vida tem pressa.
SA.
[link]

O não amor por Ana Margarida Ferreira

Imaginem. São dois até ao dia em que passaram a ser um. São três, mas são um. Uma. Família. Um dia ela esquece-se de que os três são um e pensa que é livre e que não faz parte de um três, mas que é um um. E depois já não são três e nunca mais serão três, porque ela corrompeu essa linha mágica que os unia chamada amor. Agora ela pensa que pode voltar a ser três mas nunca mais o será. Ele segue na sua ilusão, juntamente com o seu filho, unidos para sempre, esses dois que são um e serão sempre um. Desse amor não se pode ela separar, fartar, esse amor não pode ela deixar para trás. Ela quebrou o elo, ela voou. E quando aterrou novamente era tarde demais.

(Ela ama-te
e não te ama porque diz que ama a ti e a outro
e isso não pode ser amar porque ela te prometeu
naquele dia à beira mar ainda te lembras?
ela prometeu-te que te dava o seu coração
e agora ela ama-te
não te ama
não te ama
rouba-te fere-te mata-te
ama-te
não te ama)

Ela deixou-o. Ele ficou para trás, sozinho porque ela o deixou

(Ficaste sozinho não foi?
Pensavas que eras uma família.
Deixou-te, abandonou-te, trocou-te
roubou-te, estragou-te, matou-te
Não te ama)

E ele, que a odeia por isso,

( que a amas sempre
e que não deixas de a amar
ela rouba-te e mata-te e
tu continuas nesse ódio
que não é mais do que
amor)

nunca deixa de ser três, nunca se deixa ir, ou ficar, ou esquecer ou voar como ela voou

(voou
e levou-o com ela e
tu deixaste-os ir
ela rouba-te e leva-to
e parte-te o coração
e a vida
e tu que fazes
nada
não fazes nada
deixas ir
e ficas assim
morto)

Ela voou e tu não voas e continuas secretamente a odiá-la nesse amor que não és capaz de deixar partir, nesse amor que não é amor
nesse amor que o já foi outrora

Já o não é agora

Mas não deixará de o ser

Para Sempre

" Para onde vão os amores que já foram
O amor que foi um dia e não volta mais"
Rodrigo Guedes de Carvalho em "Mulher em Branco"

Ana Margarida Ferreira
[link]

Serás por João Meirinhos

Serás espasmo sem nada em comum?
Vais-me enganar com o primeiro beijo?
Teu batôn segrega sina aflitiva
e, como sonâmbulo na penumbra,
desembocarei nele porque é fado,
não protestarei a perfeição que vos abala
neste pôr-do-sol a dobrar revejo-nos
em todas as historietas que recontas portanto,
deixo dissolver-se esta atribulante paisagem
e estendo-me ao comprido no lixo do Adamastor,
esperando amável a purificação que escolheu
aceitar acariciar o áspero que raramente adoça.

Têm veneno teus lábios,
pois junto-me ao curriculum de ilusões
como autocolantes colecionados numa carcaça,
não posso começar sem ser autêntico
só para abalar o caule desta espécie de flôr,
reformada sua floresta emaranhada,
posso seguir conselhos d’albatrozes da noite
e utilizar a comoção como roleta-russa,
vezes e vezes sem conta que sorri sem querer
apercebo-me da conclusão simples que reflecti.
Será agora a revelação assombrada que receio?
Vais-me entediar com catarata de caibrãs caducadas?

Por um lado emanas a perplexidade da pena
de seres mais experiente e nunca teres amadurecido,
consigo ler as desilusões d’ingenuidade ou
serão já padrões desfocados a quem te rebaixas?
Inexprimes-te demasiado bem como se
fosse impossível insultar-te e desapareceres a correr,
espanta-me só a proximidade folclórica, tão inóspida,
entre a escória refrigerada e a traça da ginástica!

João Meirinhos, in Trepidação/trepanação (ou a ausência de evolução), 2004
[email] [link]

O não amor por Diana Martins

Fecho os olhos.

Olho…

Tento ver-me.

Esforço-me mais, tento ver-me.



Tento esvaziar a cabeça cheia de tudo e de nada.

Tento ver-me.

Esforço-me mais.





Abro os olhos, olho em volta com estranheza.

Quero ver-me.





Ouvem-se sinos ao longe, numa melodia monótona, mecânica, pausada…

Tento ver-me, esforço-me mais.



Ouço. Tento ouvir-me com clareza.

A respiração rápida, atabalhoada.

O silêncio envolvente.

Tento ver-me, esforço-me mais.



Respiro. O ar que respiro, que é meu, que sou eu, não tem cheiro.

Respiro mais profundamente, tão profunda e lentamente que me faz doer o peito.

A dor de peito que é minha, que sou eu.

Tento ver-me, esforço-me mais.



A melodia doentia, gritante, ensurdecedora, precisamente um passo atrás de mim.

Não posso virar-me.

Tenho que ver-me primeiro.

Estou a um passo, não posso recuar.

Os sinos…

Tento ver-me, esforço-me mais.



Gemidos ensurdecedores soprados ao meu ouvido.

Concentro-me, tento compreender.

Tento ver-me, esforço-me mais.



Quero ver-me!

Quero ver-me!

Quero ver-me.



Fecho os olhos, esforço-me mais.



Um fluído negro brilhante percorre-me o peito.

Corrompe-me.

Aliena cada partícula de mim, não sei o que sou.

O fluido negro preenche-me, sou o próprio fluido, sou angústia.

Tento ver-me, esforço-me mais.





Uma voz bem real soa, estridente, ensurdecedora.

Mexe-me com as entranhas, altera o fluido negro.

Fecho os olhos com mais força.

O fluido negro, torna-se mais espesso, entranha-se em todas as partículas de mim.

Espesso, mais espesso. Corrói ao passar.

A respiração aumenta de velocidade.

O coração que num pulsar monótono espalha o fluido negro por todos os recantos de mim.

A ira.

Sou o fluido negro, sou a ira.

Começo a tremer inevitavelmente.

A ira crescente no meu peito. A ira crescente em mim.

Sou a ira.

A destruição eminente.

Tento ver-me, esforço-me mais.

Vejo não amor-próprio.

Olho com mais atenção.

Quero ver-me.

Quero ver-me.



O processo foi interrompido pela voz.



O sussurro gritante por detrás de mim desaparece.

Não posso ver-me agora.



A ira.

O caos eminente.



O grito…

O grito…

O grito…

O grito…

O grito.

Estou limpa.



Recomeço.

Tento ver-me, esforço-me mais.



Fecho os olhos, quero ver-me.

Respiro fundo, quero ver-me.

Ouço com mais atenção, quero ver-me.

Toco-me, quero ver-me.

Engulo em seco, quero ver-me.



Nada…

Nada…

Nada…

Nada…

Nada.



Quero ver-me, esforço-me mais.



Fecho os olhos, respiro fundo, ouço com mais atenção, toco-me, engulo em seco, o primeiro que me ocorre antes de ser invadida pelo caos de pensamentos sujos, inoportunos e desnecessários, és tu.



Quero ver-me, não quero ver-te.

Vejo o não amor-próprio.

O amor por ti, que é um amor não amor.

O não amor por ti que é obsessão!

Quero ver-me, não quero ver-te. Esforço-me mais.



Cerro os olhos com força, tanta força que me correm lágrimas de sangue pelo rosto; respiro como se da última vez se tratasse, tão profunda e pausadamente que o coração explode dentro de mim; ouço com mais atenção, ouço a folha dourada que se desprende da árvore e toca o chão ao de leve; toco-me com paixão, arranho o corpo, arranco a pele apaixonadamente; mordo a língua e engulo em seco para sentir o sabor do meu sangue, para me sentir, para me beber.

No entanto, o primeiro que me ocorre, um segundo antes de ser invadida pela frustração, és tu.



Quero ver-me, não quero ver-te.

Esforço-me de mais.



Quero ver-me, esforço-me mais…

Mas é inútil.

Por mais que me esforce, por mais que tente ver-me, é a ti que vejo.

Precisamente como se fosse através de ti.



Preciso de ver-me.

Preciso de saber a verdade…

Os meus olhos não me mostram.

Por mais que me esforce, por mais que me doa.



Quero ver-me.

Quero ver-me.

Quero ver-me.

Vejo o não amor-próprio.

O amor por ti, que é um amor não amor.

O não amor por ti que é obsessão!



Preciso que sejas através de mim, ou que morras em mim.

Preciso de ser, de saber ser.

Não sei ser.

Não sei o que sou.

Mas sei que és muito.

Que és o primeiro que me invade antes de tudo o resto…



Quero ver-me.

Quero saber ser.

Quero ver-me.

Vejo o não amor-próprio.

O amor por ti, que é um amor não amor.

O não amor por ti que é obsessão!



Fecha os olhos com força, o máximo de força possível, tanta que as tuas pálpebras possam colar-se e nunca mais te deixem ver para fora de ti...tanta que em mim que sou através de ti, as minhas pálpebras se colem para nunca mais se abrirem para fora de nós.



Respira fundo, tão fundo, tão pausada e profundamente que todos os teus orgãos expludam dentro de ti, e te façam morrer para o mundo… tão pausada e profundamente, que em mim que sou através de ti, o impacto da explosão destrua todos os meus orgãos e me faça morrer para o mundo.



Ouve com mais atenção, ao ponto de conseguires ouvir os meus orgãos a explodir em sincronia perfeita com os teus, ao ponto de te ouvires na minha cabeça, ao ponto de ouvires o meu coração a bater do outro lado do mundo.



Toca-te apaixonadamente, arranca-te a pele com garras animais, ama-te inevitavelmente, tão apaixonadamente que a mim que sou através de ti, me invada a sensação de me estares a rasgar a carne, de te estares a cravar na minha pele.



Engole em seco, morde a tua própria língua, e engole o fluido doce que se liberta, de tal forma que eu que sou parte de ti, sinta a língua arrancada e o sangue a fluir, até que o próprio sangue me asfixie, e me mates para o mundo.



E a um segundo do fim, enquanto me apagas entre convulsões macabras e um misto de prazer e dor, numa simbiose onde o não amor impera, mostra-me o que viste, mostra-me o que sou.

Quero ver-me…







Diana Martins
[link]

Não amor por Fernando Miguel Santos

Há um estigma ligado ao romantismo. Negá-lo é negar a existência deste último. Se é que podemos dizer que ele existe.
A verdade é que o romantismo é quase tão diletante como a paixão pura e dura. Talvez nem exista como estilo de vida, tratando-se apenas de uma opção temporária. Não podemos nós ser românticos hoje e amanhã não?
É difícil enfrentar essa responsabilidade e cumpri-la de forma satisfatória. Há sempre um jantar, um ramo de flores, um sonho, há sempre algo que se interpõe no caminho fácil de quem não se subjuga às algemas do romance. No dia que elas se encaixam, é como se a chave fosse deitada fora, como se a liberdade estivesse presa por um pé a uma corda. Na outra ponta, uma pedra. E eis a nossa liberdade a sufocar depois de cair nas águas do tempo imenso, presa.
Na verdade, não há um único amor. Cada um tem o seu, e cada pessoa que o partilha tem dele uma versão e uma visão diferentes. Por isso, não pode existir romantismo como identidade unificada. Existe, sim, uma tentativa de corresponder a alguém, de suprir uma necessidade maior que se traduz em algo incorpóreo. Para quê tentar definir o indefinível? Porque não conseguimos deixar o importante indefinido. Simples.
E, de repente, vemos um rosto. Um cheiro e uma voz fazem-lhe companhia. Um corpo aparece. Olhos, lábios, contacto. Juntam-se, entram numa fase de banho-maria, transformam-se, unem-se e criam uma sensação. Apenas essa sensação existe, agora. Já não há indivíduo, há conjunto e parceria. Nem que seja por uma noite. Como os homens não se medem aos palmos, também as sensações não se medem ao minuto. Não há tarifa que as pague.
Então, esse não amor que insiste em catalogar estilos de vida e decidir quem é ou não valioso, cujos olhos são mais do que dois, mas olham todos só numa direcção, esvai-se. Sobra, nessa altura, o livre arbítrio. Temos espaço. Deixamos o não cair. O restante, usamos como nos aprouver, pelo tempo que for, na complacência rara da partilha com um outro e não com a sociedade. Só existem dois ali. Por mim, saio, em silêncio e deixo-os em paz. O seu não amor rejeita o amor que lhes querem impingir. Que assim seja até que a morte (do seu não amor) os separe.


Fernando Miguel Santos (autor de Aldeia de Luz)
[link]

Not Not Not por Celi M.



[link]