Thursday, May 22, 2008

Editorial por Diana Martins

Foi com surpresa que recebi o convite feito amavelmente pela anterior editora, Styska. Aceitei de imediato, sem pensar nas implicações deste trabalho. Ao pensar friamente sobre a minha decisão, apercebi-me da complexidade do trabalho e daquilo que ia exigir de mim, então fiquei assustada, tive medo de não estar à altura, mas não vacilei. A Styska havia feito um trabalho fantástico, e deu-me o privilégio da sua escolha, não podia desiludir. Comecei então a pensar no tema. Queria alguma coisa diferente, assumi, por isso, o risco de escolher não só uma expressão, como uma imagem. Ia ser um desafio para mim também, desconstrui-las, torná-la em palavras. A princípio fiquei assustada, as participações demoraram a aparecer, e já adivinhava o fracasso da minha escolha, do meu risco pouco calculado. Quando finalmente começaram a mostrar interesse e curiosidade pelo tema, admito que foi um alívio para mim. Surgiram ideias diversas e então o meu problema transformou-se. A dificuldade residia agora na selecção. Agradeço a todos os participantes, e peço desculpa aos que ficaram de fora, foi com muita pena minha, mas não podia, de facto, escolhê-los a todos. Peço que nem por isso percam a motivação, participem sempre e cada vez com mais garra, acredito que este projecto o mereça.

Este projecto que visa a criatividade, a inovação. E julgo que com o contributo de todos, tem vindo a evoluir de forma muito positiva. A participação de Pedro Almeida imprimiu a este projecto um cunho muito pessoal, diversificando o cariz dos trabalhos. Creio que a sua participação poderá suscitar o interesse de novas pessoas, com trabalhos diferentes dos que têm sido publicados até aqui. E, por isso, será ele o editor do próximo mês.



Tema de Junho: O vício.

Saudações Arcadianas.


Até à próxima edição.


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Cor por Styska

Branco. Cubro o rosto de branco, o mesmo branco-pálido que me cobriu na aurora em que me seguraste os braços de vida a escorrer. Branco para que te lembres.

Vermelho. Pinto nuances de vermelho na face. Não de paixão, não o vermelho-coração a que estás habituado. Pinto-me de vermelho-carne, reminiscente do que podia ter sido. Vermelho para que não se te olvide a quase-lembrança.

Negro. Rasgos negros no meu rosto reflectem a escuridão que me assombra a alma. Negro para que nunca te esqueças.

Invento-me um novo rosto na esperança que me inunde uma força que não tenho. A força que preciso para manter o que disse em momentos de desespero. Faço-me guerreira para que me vejas e não te olvides. Mas as lágrimas que me correm pelo rosto não têm cor. Olho para o espelho e tudo o que vejo é a tua ausência… Desmaquilho-me no reflexo duplicado da alma. A minha. A tua. Não tenho força nem há maquilhagem que ma dê.

Visto-me de violeta. Amo-te todas as cores da paixão.

Não te olvides nunca.

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As Faces por João Meirinhos

Hoje analisei-te ao espelho pela primeira vez na vida.

Espantado perante tão vaga ideia de mim mesmo;

sempre escondi as marés do medo numa arrogância inconsciente,

agora compreendo os cristais gastos que criei como protecção

(viver sem me importar, afastando-me de todos).


Sou apenas nem um minúsculo suspiro

ensanguentado pelo engano da criação,

ervilha hercúlea pervertida, polinizada sob a crosta

fechada a lacre personalizado no envelope interior,

aprendendo a lidar com a própria caricatura

e respirar paz prespectivando o nada aerodinâmico.


Compreendo que aqui e assim não quero ficar

enfrentando sozinho os recantos obscuros da personalidade,

pânico e histeria apoderam-se (gostava de conseguir desistir)

dada a complexidade de amarras desta injusta condição designada humana,

que as disfuncionais Felicidade e Maturidade apodreçam

fugindo por sombras invisíveis, esperando ao virar da esquina

pela revelação que me acorde deste sonho incompleto e

me esfaqueie até à enseada temida Morte...


2002

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No Parque por A. Moreira

Andava sozinha, perdida nos pensamentos. O dia estava cinzento e a tarde húmida. Árvores, bancos, candeeiros brancos, folhas, pedras, pássaros, passava por tudo meramente a olhar de vez em quando. Estava habituada àquele caminho, àquele lugar, mas nunca tinha visto aquele sítio com olhos de ver. Só conseguia ver o chão de cimento, mais nada.

Foi a ver o chão que ela foi encontrada: sozinha, no parque, já ao final da tarde. Graças à luz amarela dos candeeiros brancos, aquela peça foi descoberta. Uma peça pintada com a parte de uma cara estranhamente real. Era opaca e de um material elegante como madeira, mas forte como aço. A pintura observada era a de um olho esquerdo do cinzento das nuvens daquele dia. Enquanto a pele era branca como os candeeiros do parque, as tiras de cabelo eram negras como as andorinhas que estavam pousadas nos arbustos mais próximos. A imagem era leve, mas a peça era extraordinariamente pesada para o seu tamanho e forma quadrangular. “O olho observa, parece estar vivo, mas não passa de uma imagem!”

Antes de recomeçar a andar com o objecto na mão, foi notória a presença de um papel na parte contrária à da imagem: “parece... parece um... papel autocolante?”. Depois de retirado, essa superfície manteve-se estranhamente com a mesma textura. De repente e antes de qualquer reacção ou pensamento possíveis, a peça saltou da palma da mão esquerda que a segurava para a cara! A peça colocou-se sobre o olho esquerdo como se esse fosse o seu derradeiro lugar e tivesse apenas estado uns dias fora. Em nojo e medo, existiram tentativas para retirar a peça, mas esta não saía por mais que puxasse... Tinha acontecido: a peça estava colada à cara! Ao tentar manter a calma e ao olhar pelo novo olho que tapava o olho esquerdo antigo, houve espanto.

Enquanto que pelo olho direito só se via o céu cinzento do fim de tarde e a luz amarela dos candeeiros brancos, pelo olho esquerdo o cenário era outro: céu azul de várias tonalidades, sendo possível ver estrelas no céu azul escuro e ainda o clarão do sol que se tinha posto há instantes no céu azul claro. A luz outrora amarela dos candeeiros, só mantinha essa cor se pensasse nela. Bastava pensar “roxo”, que a luz de todos os candeeiros que conseguia ver ficava roxa para logo a seguir pensar “laranja” e a luz ficar dessa cor. Até as árvores eram diferentes: pelo olho da direita, só tinham um tom de verde, escuro e monótono, enquanto que, pelo olho esquerdo, era impossível contar todos os tons de verdes e amarelos e castanhos existentes.

Ao continuar a andar foi possível encontrar outra peça no chão, desta vez com a imagem de um pescoço. Depois de retirado o papel autocolante, a peça tomou logo o seu lugar. A caminhada continuou e há outra peça e outra e mais outra ainda. Foram encontradas sete peças no total, incluindo o olho direito, que provocava o mesmo efeito que o esquerdo. A cara estava completa à excepção do nariz e da boca.

Mas as peças encontradas tinham manchas vermelhas e doentias espalhadas. Essas manchas eram visíveis nas pálpebras e bochechas e pareciam estar a alastrar. Começava a olhar com preocupação à volta, para o chão, para os bancos e até para os arbustos à procura da derradeira peça na esperança que isso travasse as manchas.

Depois de andar, correr, correr, andar, descansar e andar outra vez, já havia dado umas 3 voltas ao parque sem sucesso. Já estava quase a desistir quando a peça foi calcada. Tinha pisado a peça quando ainda há instantes tinha olhado para ali e só lá estava o vazio no chão de cimento. Aquela pele branca que quase não deixava distinguir o nariz, uma réstea do cabelo negro que já conhecia e a boca. A boca quase igualmente branca, mas com uma porção ainda mais preta que os cabelos a dividir os lábios.

Foi com ansiedade que aquele último papel foi retirado. A peça colou-se e o puzzle estava completo. As manchas desapareceram gradualmente e estava finalmente completa! Só respirava ar puro, só falava para dizer o que realmente precisava e via, finalmente conseguia ver! Já não olhava para o chão. Agora o caminho era feito a olhar para a frente, como sempre queria ter feito fazer, mas não conseguia... até ali.

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Cara por Celi M.

Hoje, toda eu toda de negro

Toda eu cravada de medo

Lábios selados em segredo

Tão escura, já não me alegro

As mãos morrem-me cedo

Esqueci já o meu enredo

O coração já não é íntegro


Largo o choro preto no chão

Lágrimas secas de um fado

História de um peito pesado

Viúva do meu próprio coração

Prisioneira do meu passado

Presa no meu olhar calado

Aprisionada numa má canção


E toda a dor da tua partida

Me traz de ti a lembrança

Consome-me a esperança

Esventra de mim toda a vida

Tudo é uma eterna dança

Até o respirar me cansa

E toda eu sou uma ferida


Fugiste mas ficas em mim

Cravas nesta pele a tua voz

Trazes a recordação de nós

Queimas-me o nosso fim

Deixas-me os braços a sós

Amarras em mim os teus nós

E eu nunca te disse um sim


A minha cara negra de ti

A minha cara negra do mundo

Gravado nesta cara bem fundo

Sem que eu deixe ficas aqui

Tu e esse teu sorriso imundo

Que se transforma num segundo

Gritando-me que morri


O meu olhar escuro

A minha face preta

O andar inseguro


Desprovida

De vida



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